Domingo, Dezembro 25, 2011

diário espiritual de Paramahansa Yogananda

12/12 - Silêncio

Meu silêncio, como uma esfera em expansão, propaga-se por toda parte.

Meu silêncio propaga-se como uma canção de rádio, acima e abaixo, à esquerda e à direita, dentro e fora.

Meu silêncio se espalha como um incêndio de bem-aventurança; os sombrios arbustos da tristeza e os altos carvalhos do orgulho estão todos se consumindo nas chamas.

Meu silêncio, como o éter, tudo permeia, levando as canções da terra, dos átomos e das estrelas aos salões da Sua infinita mansão.

[Paramahansa Yogananda, "Meditações Metafísicas"]

UBU WEB :: Sound

Pra constar:

http://www.ubu.com/sound/

!!

Se eu tenho palavras?
Daqui um mês, mais ou menos, talvez.

Vou ouvir.

Sexta-feira, Março 05, 2010

[imagem: Lucie Bilodeau]

"Ouvir sempre foi importante, mas atualmente tornou-se muito mais. Mais do que nunca, a televisão mostra como o nosso sentido de audição é superior ao da visão. Os psicólogos que se dedicam à psicologia da criança reconhecem que um conto de fadas visto pela TV, na melhor das hipóteses, nada mais é do que diversão. O que acontece está acontecendo na tela, e antes disso já ocorreu no estúdio. A criança não está vendo nada mais do que informação sobre um evento que já aconteceu em algum outro lugar. A imagem 'externa' dispensa a imagem 'interna'. É verdade que a imagem 'externa' é mais colorida, tem mais ação, fascina mais e é mais eloquente. Mas, é bem por isso que ela reprime e sufoca a imagem interna. Por outro lado, se você contar um conto de fadas a uma criança, ela terá de usai as imagens 'interiores' para entender a história. Essas imagens 'interiores' são as que produzem experiências e que enriquecem; as imagens 'exteriores' apenas são carregadas de informação e sensação."

(Joachim-Ernst Berendt - Nada Brahma: a música e o universo da consciência)

Quinta-feira, Março 04, 2010

"A música é... um modo aberto que, através da sua natureza essencialmente estrutural, se ajeita singularmente para revelar a estruturação dinâmica da vida social, uma estruturação da qual o 'material' forma apenas um aspecto. A música é conclusiva... porque o significado social só pode surgir e continuar a existir através da comunicação simbólica que se origina na consciência - comunicação de que a música faz parte"

(John Shepherd)

Quinta-feira, Janeiro 14, 2010

COMO TOCAR TCHAIKOVSKY NO ESTILO PUNK CABARET, por Amanda Fucking Palmer

(Estou apaixonada por essa mulher. E foi justamente a "moral da história" desse post que me deu a idéia de fazer essa tradução: você pode fingir que sabe fazer alguma coisa, não importa. Se você for fingindo, fingindo, fingindo... quando menos esperar, de repente você pode já estar realmente fazendo.

Obs:

- O texto é cheio de gírias e expressões que eu levaria semanas para traduzir. E eu queria terminar logo. Por isso, paciência, algumas coisas vão soar estranhas, talvez sem muito sentido, e com "cara de coisa traduzida". Mas ok. O importante é que eu fiz. Até o final!!

- Queria muito que existisse no português uma forma de traduzir o tão usado "fucking". Acho que não existe. Minha tentativa seria... "fodasticamente"! Até que é bom, não é? Mas dessa vez eu simplesmente ignorei o fucking em alguns casos.
Chega de papo... e agora com vocês, Amanda Fodasticamente Palmer:)


* * * *

sinceramente, não posso dizer ao certo por que decidi fazer isso.
acho que meu pensamento inicial foi: “ah, merda. vou tocar na boston pops de novo... eu realmente deveria fazer alguma coisa clássica e me forçar a sentar e praticar.” =
eu nunca, nunca pratico piano. eu odeio. odeio. odeio. odeio praticar piano. ODEIO. RALMENTE ODEIO.

na real: é por isso que eu me estresso com esse trabalho, cara.

quando eu era adolescente, minha mãe me pagou para fazer aulas de clássico. sério. ela ofereceu um aumento de alguns dólares na minha mesada por algumas semanas se eu fizesse isso.
obrigada, mãe, por se importar. eu provavelmente teria tentado a mesma coisa.

mas eu era uma bobinha teimosa, muito teimosa.

eu me sentava na aula, olhando vagamente paras aqueles rabiscos de notas no papel na minha frente, e simplesmente TRAPACEAVA durante as lições, ASSISTIA a professora tocando a peça. eu capturava tudo na minha mente e depois tocava de ouvido. me recusava a olhar para a partitura, e quando eu supostamente devia levar a partitura para estudar em casa, eu simplesmente NÃO QUERIA. eu não praticava.
EU ODIAVA. isso ficou claro?

lembro que uma vez uma professora disse pra minha mãe me comprar um metrônomo pra deixar junto ao piano.
me disseram que eu devia praticar com o metrônomo.

eu não era uma criança extremamente violenta. acho que eu era violenta-normal. sabe, essa coisa típica de puxar o cabelo da irmã e tal.
eu não atirava coisas pra machucar (muito) as pessoas e nem tinha acessos explosivos de raiva. (bom, isso a partir dos 4 anos de idade)
eu era relativamente agradável.

mas juro por deus, aquele maldito metrônomo me fez querer travar guerra com o planeta inteiro, e com energia nuclear.
aquele tic-tac no meu ouvido era o equivalente a alguém colocar a sua cabeça, num dia de ressaca, em cima de uma placa de metal, e bater nela repetidamente com uma bigorna.
eu simplesmente ODIAVA PRA CARALHO.
e então um dia, eu estava sentada na sala, no piano, e deveria estar praticando qualquer coisa, e o metrônomo estava tic-taqueando o seu cruel tic-tac amaldiçoado, peguei ele e arremessei através da sala. ele se estraçalhou na lareira vazia, e nunca mais fez tic-tac.
eu me senti muito, muito culpada, mas também sem vergonha, como se eu tivesse sido tomada por uma força alienígena.
na minha cabeça, aquilo era um Instrumento do Mal e eu tinha realizado um ato de Deus.
nem me lembro se minha mãe ficou brava. acho que talvez ela tenha desistido depois disso.

quando fui para a faculdade (e nesse momento eu já estava bem determinada a ser uma musicista quando crescesse), desenvolvi uma culpa católica ao redor do fato de ser tão preguiçosa , e então decidi fazer algumas aulas de clássico enquanto estivesse lá. eu tentei. de verdade. tentei praticar, me forcei a ficar num porão praticando algumas vezes por semana, e transformei a “pathetique” de Beethoven em um longo chicote clássico, com o qual destruí minha preguiça. mas assim mesmo, eu odiava. gostei de ter uma “usina geradora” de música clássica sob o meu cinto, e gostei de tocar essas músicas; mas também tive uma profunda sensação de inquietação: “por que diabos eu estou fazendo isso? pra provar o quê?”
eu poderia contar aquelas linhas ad infinitum e tentar fazer os rabiscos fazerem sentido. até hoje, você pode me ver murmurando “every good boy deserves.....” enquanto tento deduzir qual nota é qual quando olho para uma clave de sol.
eu sou retardada. não me pergunte por que eu não consigo lembrar que B (si) é o meio dessa pauta musical. simplesmente não consigo. posso ouvir qualquer canção no maldito rádio e tocar ela de ouvido, mas não consigo lembrar que aquela notinha no meio daquela partiturazinha é um B. oliver sacks provavelmente poderia te explicar.

enfim, na faculdade eu escapava por inúmeras tangentes de improviso nos momentos em que supostamente deveria estar praticando, mas eu estava achando difícil escrever qualquer canção durante esses anos.
depois que me formei, nunca mais passou pela minha cabeça aprender ou tocar uma peça clássica, até esse ano.

alguma coisa se mexeu dentro de mim, e decidi me re-disciplinar. no show de london do verão passado, apanhei muito pra tocar uma pequena peça de Bach. vou desenterrar e tuitar isso.

e para a pops, só escrevi um e-mail dizendo “quero tocar um concerto”. keith respondeu com diversas sugestões, de mozart a rachmaninoff a tchaikovsky, e ouvi tudo e tentei determinar o que seria mais fácil e mais explosivo com menos esforço.

eu peguei a música e comecei a praticar no começo de dezembro. neil e eu estávamos entocados por uma semana, e eu decidi praticar algumas horas por dia.
eu me encontrei com meu amigo pianista, murray barg, em Boston, e ele me ajudou a destrinchar a partitura, para ter certeza de que eu não estava lendo nenhuma nota errada.
e para entender o tempo, eu assisti no youtube alguns clips do van cliburn detonando.

logo eu percebi que, para tocar essa peça (primeiro concerto para piano de tchaikovsky), eu deveria ter começado a estudar em 2008.
não tinha jeito.
impossível.

eu pensei, por um segundo, em ligar para a pops e dizer pra eles tirarem a peça do programa. (e eles realmente não teriam se importado, a orquestra não ensaia essa merda até O DIA DO SHOW. DE VERDADE.)

mas eu não tive estômago pra isso. eu me senti completamente frustrada.

eu voltei a olhar para a peça realisticamente, e decidi que eu poderia provavelmente aprender os primeiros minutos, mas ainda assim não seria no tempo, ia ser muito tosco, e eu teria que empurrar e puxar os tempos.
mas mesmo assim, eu decidi fazer.

liguei para o meu amigo lance horne e pedi a ele para aprender o resto da peça (agradeço ctchulhu pelo lance).

beth tramou a cena do celular inoportuno, e criou o casaco “removível” de velcro (agradeço ctchulhu pela Beth).

e então eu simplesmente passei algumas horas por dia no meu apartamento em boston, pelo resto de dezembro, praticando essa merda.
acho que eu nunca, nunca na minha vida pratiquei tanto alguma coisa.
e no final das contas, a questão não era mais a performance. a performance se tornou secundária.
a questão agora era testar a minha força de vontade.

...rufem os tambores...

o resultado, senhoras e senhores ( e graças a deus alguém filmou e postou, quem quer que você seja... agradeço ctchulhu por você também).



o resultado é o que eu chamo de puro e completo “punk fucking cabaret”.

finjam que fazem até fazer, pessoal.
não tem ninguém contando os pontos.

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AFP

Terça-feira, Dezembro 01, 2009

a primeira coisa que existiu


Música linda do Arnaldo Antunes que inspirou um lindo trabalho com dos alunos do grupo ANIMA ANGRA. Adorei!

O Silêncio - Arnaldo Antunes

antes de existir computador existia tevê
antes de existir tevê existia luz elétrica
antes de existir luz elétrica existia bicicleta
antes de existir bicicleta existia enciclopédia
antes de existir enciclopédia existia alfabeto
antes de existir alfabeto existia a voz
antes de existir a voz existia o silêncio

o silêncio
foi a primeira coisa que existiu
um silêncio que ninguém ouviu
astro pelo céu em movimento
e o som do gelo derretendo
o barulho do cabelo em crescimento
e a música do vento
e a matéria em decomposição
a barriga digerindo o pão
explosão de semente sob o chão
diamante nascendo do carvão
homem pedra planta bicho flor

luz elétrica tevê computador
batedeira, liquidificador
vamos ouvir esse silêncio meu amor
amplificado no amplificador
do estetoscópio do doutor
no lado esquerdo do peito, esse tambor

Segunda-feira, Novembro 30, 2009

faça você mesmo

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

...descobri que as coisas mudam e que tudo é pequeno... nas asas da Panair.


[Conversando no Bar (Saudade dos Aviões da Panair) - Milton Nascimento]

A Panair do Brasil S.A. foi uma das companhias aéreas pioneiras do país. Nasceu como subsidiária de uma empresa norte-americana, a NYRBA (New York-Rio-Buenos Aires), em 1929. Incorporada pela Pan Am em 1930, teve seu nome modificado de Nyrba do Brasil para Panair do Brasil, em referência à empresa controladora (Pan American Airways).
Por décadas dominou o setor de aviação no Brasil. Encerrou suas atividades abruptamente em 1965, por determinação do governo militar.

A alegação das autoridades governamentais era que a companhia era devedora da União e de diversos fornecedores. Muitos de seus ex-funcionários e mesmo autoridades consideram tal ato uma arbitrariedade, comum em regimes de exceção aos quais o País estava submetido a época. Justificam-se estes com base em documentos daquele ano, que indicariam que, dentre todas as empresas áereas brasileiras, a Panair era a que possuía o menor montante devido ao Governo Federal.

Autores avaliam que a destruição da companhia tinha a ver com a persegüição que o regime militar movia contra seus proprietários, os empresários Celso da Rocha Miranda e Mário Wallace Simonsen — este, dono também da TV Excelsior, que foi igualmente fechada. Especulam ainda que tal ato tenha sido executado como forma de favorecer a Varig, que, com o fechamento da Panair, incorporou não apenas suas rotas internacionais para a Europa e Oriente Médio, mas também suas aeronaves e outros ativos, como oficinas de revisão e a rede de agências no exterior, tornando-se a maior empresa aérea do país.

Os ex-funcionários da Panair do Brasil têm geralmente muito orgulho de haver trabalhado para esta companhia. Desde 1966, cerca de 400 pessoas se reúnem num almoço anual, realizado no dia 22 de outubro, para lembrar dos velhos tempos e recontar as inúmeras histórias pessoais, celebrar e rememorar as agruras e as glórias da aeronáutica, mas sobretudo aquelas adornadas pelo verde e dourado da Panair. Esse grupo, autodenominado Família Panair, é formado por ex-funcionários da empresa, seus descendentes e amigos.

[fonte: Wikipedia]

E foi o "tempo Panair" que inspirou esta maravilhosa música do Milton Nascimento, cantada pela maravilhosa Elis Regina, que estamos começando a maravilhosamente cantar agora no Coral Fundap.

Até eu, que não tava lá, fiquei com saudade!

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

todas las voces, todas!



Mercedes Sosa *09/06/1935 +04/10/2009

Domingo, Outubro 04, 2009

O jogo das contas de vidro (ou "O jogo de avelórios, ou, no original, Das Glasperlenspiel) é um livro que eu "estou pra ler" há muitos anos. Acho que preciso arranjar uma edição com as letras maiores.

Por enquanto fica aqui um trechinho que anotei numa dessas tentativas:

"O Mestre tocou uma pequena série de notas, um trechinho da melodia da canção aludida, e os sons vibraram maravilhosamente, assim desligados do seu conjunto, sem cabeça nem cauda. Ele tocou o tema mais uma vez e continuaram logo, vindo em seguida a primeira entrada, depois a segunda transformou a seqüência de quintas em uma seqüência de quartas, a terceira repetiu a primeira uma oitava acima, e do mesmo modo a quarta repetiu a segunda, terminando a exposição com uma cadência na tonalidade da dominante. O segundo período modulou de modo livre para outras tonalidades, e o terceiro, aproximando-se da subdominante, terminou com uma cadência no tom fundamental. O menino olhava para os sábios e pálidos dedos do executante, percebendo na expressão contida de seu rosto o leve reflexo do desenvolvimento musical, enquanto seus olhos repousavam sob as pálpebras semicerradas. O coração do menino palpitava de respeito, de amor pelo Mestre, e ao ouvir a Fuga, parecia-lhe escutar a música pela primeira vez, pressentindo por detrás da composição que surgia, o espírito, a benfazeja harmonia de lei e liberdade, de servidão e domínio; ao mesmo tempo ele se entregava e se voltava a esse espírito e a esse mestre, vendo refletidos nesses minutos sua própria pessoa e sua vida, o mundo todo - nesses minutos conduzidos pelo espírito da música, que os organizava e lhes conferia significado. Quando a execução terminou, ele viu aquele homem venerado, aquele mágico e rei conservar-se ainda por um breve instante inclinado levemente sobre as teclas, com as pálpebras semicerradas, uma leve luz interior iluminar-lhe a fisionomia, e ficou na dúvida se devia exultar de alegria pela ventura desses instantes, ou chorar porque eles haviam passado. Então o ancião ergueu-se lentamente do banquinho do piano, fitou-o com seus olhos azuis e joviais, com olhar penetrante mas afável, e disse:
- A maneira mais fácil de duas pessoas ficarem amigas é quando tocam juntas. É uma maravilha! Tenho esperanças de que havemos de conservar nossa amizade, eu e tu. Talvez tu aprendas também a compor Fugas, José.
Dizendo isso, estendeu-lhe a mão e partiu." (.......)